Consumismo: proteja seus filhos deste mau hábito


Panfletos, vitrines coloridas, promoções, enfeites com personagens de desenhos animados: é o que se vê ao passar pelas lojas nesta época do ano. Assim, levar os filhos as compras pode ser sinônimo de pirraças, gastos escessivos ou de um estimulo a um mau hábito chamado consumismo.

Pesquisa realizada no estado do Rio Grande do Sul mediu a intenção de compras e revelou que os brinquedos estão na segunda posição com 45% dos consumidores que participaram da pesquisa, perdendo apenas para a opção vestuário apontado como principal item (65,7%). A pesquisa não foi a nível nacional, mas  estima-se que  pelo histórico dos levantamentos feitos nas demais regiões, estes dados refletem um costume de compra dos brasileiros antes e durante as festas de fim de ano.

Como as crianças são as mais presenteadas, os pais devem estar atentos ao perigo do consumo exagerado, aos apelos dos lojistas e da publicidade em geral.  O problema, no entanto, não está nos presentes ou nas compras, mas na forma como a sociedade consume e ensina as crianças a consumir.

A associação dos produtos a personagens de programas infantis, promoções e ofertas associadas à coleção é uma das  estratégias mais utilizadas e que deixam as crianças mais vulneráveis. A  vulnerabilidade é a principal causa das discussões dentro do tema.  Até que ponto o mercado se aproveita desta característica do universo infantil? Como fazer para proteger as crianças das possíveis influências negativas?

De acordo com Código de Defesa do Consumidor a publicidade que “se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança” é  considerada abusiva  conforme descrito no parágrafo 2º do artigo 37.

Lais Fontenelle Pereira – psicóloga e coordenadora de Educação e Pesquisa do Projeto Criança e Consumo (Instituto Alana), afirma que a publicidade estimula o consumismo que embora não seja uma doença, é um mau hábito.  Recentemente, houve ampla discussão sobre o tema devido ao Projeto de Lei 5921/01. A medida aprovada em julho deste ano pela Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados – que ainda não entrou em vigor  – proíbe a publicidade e a comunicação mercadológica, em qualquer das suas formas, direcionada ao público infantil, ou seja, as propagandas não poderão dirigir-se as crianças ou utilizá-las como personagem a menos que seja relacionada a temas como saúde e educação.

Os esforços convergem em um só objetivo: assegurar o respeito à criança e ao adolescente, que de acordo co m o caput do artigo 227 da Constituição Federal, é um dever da família, da sociedade e do Estado. Somos todos responsáveis!

Confira entrevista com Lais Fontenelle Pereira do Instituto Alana sobre  educação para o consumo infantil.

A educação para o consumo pode ser uma ótima ferramenta no combate as más influencias e, para ajudá-lo, a equipe do Portal do Consumidor entrevistou Lais Fontenelle Pereira do Instituto Alana. Na entrevista, a psicóloga responde as principais dúvidas quanto ao consumo infantil.

Portal do Consumidor – Existem muitas dúvidas por parte dos pais sobre a atitude ideal durante a escolha do presente. Levar ou não levar a criança junto para comprar, deixá-la ou não escolher o brinquedo, estipular valor… Qual o procedimento ideal durante a compra?
Lais Fontenelle – Alguns especialistas recomendam que os pais evitem levar as crianças para compras de supermercado ou para um passeio no shopping – que quase sempre acaba em consumo. Mas, caso não haja outra possibilidade e os pais tenham que levar as crianças às compras, a dica é dialogar e fazer combinados antes de sair de casa. É muito importante que, nesse momento, os pais estabeleçam limites para as crianças. Caso contrário, o risco de viver aquelas cenas de filme, em que o filho se joga no chão porque o pai não quis comprar o brinquedo X, é enorme.

Portal do Consumidor – No caso de deixá-la escolher. Como fazer se a criança escolher um presente acima das suas condições?
Lais Fontenelle – O diálogo é sempre a chave para o entendimento. Nesses momentos, não basta dizer não e deixar a criança frustrada. É preciso que ela entenda porque não vai ganhar o brinquedo. Educar é um processo contínuo e exige negativas. Dizer não é cuidar para que os filhos para que eles aprendam a lidar com frustrações e entendam o valor das coisas. Para isso é fundamental ter cuidado e atenção com a vida deles.

Portal do Consumidor – Como saber dentre os brinquedos qual é o mais indicado, educativo etc.? E, como convencer a criança de que determinado brinquedo seria melhor pra ela?
Lais Fontenelle – É difícil dizer que um brinquedo é ruim para uma criança. Segundo Vygotsky quem confere o significado ao brinquedo é o brincar. Dependendo da faixa etária, vários tipos de brinquedos podem ser interessantes. Para cada fase existe um brinquedo que ajuda no desenvolvimento. Para as crianças menores  são recomendados brinquedos de faz de conta, que estimulam a imaginação. Para as maiores, podem ser jogos e brinquedos que estimulem a brincadeira em grupo. O importante é que o repertório seja variado e acompanhe as necessidades de cada fase.

Portal do Consumidor – Quais os sinais podem ser percebidos na criança que demonstrem que ela tem algum problema em relação ao consumo?
Lais Fontenelle – Se para nós adultos é difícil resistir a alguns apelos, para as crianças é ainda mais porque elas são mais vulneráveis pelo fato de estarem em desenvolvimento e porque até os doze anos de idade não tem a capacidade crítica e de abstração de pensamento formadas.
Fica mais evidente que esses valores não são bons quando, por exemplo, a criança muda o comportamento porque não pode consumir um produto. Por exemplo, quando ela não quer ir para a escola porque não tem a mochila da moda, isso é motivo de alerta.

Mas considero que o consumismo não é uma doença, mas um hábito estimulado na sociedade de consumo e pela publicidade.

Portal do Consumidor – A criança consumista deve ser tratada por um especialista ou existe alguma forma de tratar do problema no meio familiar?
Lais Fontenelle – Esse é um problema difícil de resolver. Mas o assunto é de interesse de toda a sociedade e dever discutido entre pais, mães, professores, psicólogos, governos e também com o mercado.
Apesar de não ser uma doença, o consumo desenfreado, contribui para causar doenças, como obesidade e transtornos alimentares. Um número reflete o tamanho desse problema: segundo o Ministério da Saúde, quase 30% das crianças brasileiras estão com sobrepeso. Esse índice está relacionado ao consumo de alimentos poucos nutritivos.

Portal do Consumidor – Diversos artigos, produzidos por especialistas na área, mostram a influência da publicidade no consumo. Como proteger as crianças desta influência?
Lais Fontenelle – Esse é um dever da família, do Estado e do mercado. Somente a atuação conjunta pode trazer algum resultado. O Projeto Criança e Consumo vê alguns movimentos e debates acontecendo e isso já demonstra que há uma preocupação.

É importante que as famílias sejam unidas e que os pais acompanhem o cotidiano dos filhos – saber, o que mais gostam de fazer, do que seus filhos brincam.

O diálogo tem que estar presente e também é importante que os pais estabeleçam limites. O Projeto Criança e Consumo tem uma cartilha com várias dicas. A cartilha, que se chama “Como proteger nossas crianças do consumismo” está disponível para download gratuito. Basta entrar no site http://www.alana.org.br/CriancaConsumo/Biblioteca.aspx?v=4&pub=4

Portal do Consumidor – Você poderia falar um pouco sobre a legislação que visa proibir a propaganda direcionada ao público infantil?
Lais Fontenelle – Para o Criança e Consumo, é importante que exista uma lei que proíba a publicidade dirigida às crianças até os doze anos para que os excessos diminuam.
Isso porque a criança é um ser em formação e não tem condições de entender plenamente as mensagens publicitárias e seu caráter persuasivo. Tanto, que muitas vezes a criança até mais ou menos os oito anos não consegue diferenciar o que é conteúdo do que é publicidade.
As conseqüências são negativas e prejudicam o desenvolvimento saudável das crianças, tanto que consideramos que esses aspectos já estão previstos no Código de defesa do Consumidor (artigo 37), no Estatuto da Criança e do Adolescente e na Constituição Federal.

Para denunciar ou retirar suas dúvidas sobre propaganda o consumidor pode entrar em conta com o CONAR Conselho de Auto-regulamentação Publicitária, órgão que regulamenta e julga a propaganda e que pode inclusive sustar um anúncio (tirar de circulação) caso seja considerado abusivo. Além disso, qualquer cidadão pode fazer denúncias junto ao órgão caso sinta-se lesado. O consumidor também pode fazer valer seus direitos junto aos órgãos de proteção e defesa do consumidor.

2 comments

  1. Excelente e oportuna matéria sobre consumo infantil, já que estamos às vésperas do Natal, evento que deve ser vivido em seu real significado, e não como época de encher a mesa de iguarias e incentivar compras de presentes – que rapidamente se perdem no tempo e no espaço…

  2. Importante a matéria, além de criança os adultos esquece que o principal é a presença no dia/dia, quem lógico que quem não fez
    durante o ano, também não vai ser presente no Natal.

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