Inmetro analisa usabilidade de embalagens de alimentos


O Inmetro analisou a usabilidade de embalagens de três tipos de alimentos: aquelas para barra de cereal, saco plástico para bisnaguinhas ou macarrão e enlatadas com abertura do tipo anel. Nenhuma demonstrou ter um desempenho totalmente satisfatório.

usabilidade

Usabilidade ainda é um termo pouco conhecido. A grosso modo é possível dizer que avaliar a usabilidade é verificar o nível de “facilidade” que as embalagens oferecem, o grau de eficiência destas e o quanto elas satisfazem a necessidade do consumidor na hora de uso e manuseio.

Em uma análise superficial, pode-se pensar que ausabilidade das embalagens é um aspecto periférico, sem muito impacto nas relações de consumo. Entretanto, é fundamental para evitar e prevenir acidentes ou cortes na hora do manuseio do produto, para o bom armazenamento e, entre outras questões, abarca informações imprescindíveis para a preservação da saúde e da segurança do consumidor.

Cabe destacar que os registros do Sistema Inmetro de Monitoramento de Acidentes de Consumo (Sinmac) revelam que as embalagens enlatadas são aquelas com maior número de relatos de acidentes pelos consumidores. Numa classificação por família, as embalagens em geral, aparecem como a quarta família de produtos com maior registro de acidentes, com 11,7%.

Diante da importância do tema e do grande número de acidentes, o Inmetro analisou as seguintes marcas:

Oito embalagens de Barra de cereal: Hershey’s Barras Cereais, Nature Valley, Nestlé Barras Cereais, Nutry, Quaker Barras Cereais Ritter, São Braz – Barra de Cereais e Trio Barras Cereais;

Seis embalagens enlatadas com abertura com “anel”: 88 Sardinhas Anel, Beira- Mar Sardinhas Anel, Bonfiam Fiambre Bertin Anel, Gomes da Costa Sardinhas Anel e Swift Salsicha Anel, Whiskas – Alimento para gatos;

Seis embalagens plásticas, “bisnaguinhas” ou macarrão: Adria (macarrão), Piraquê (macarrão), Plus Vita (bisnaguinhas), Qualitá (macarrão), Seven Boys (bisnaguinhas) e Wickbold (bisnaguinhas).

Por não haver documentos que abordassem todos os aspectos de interesse para a análise, o Instituto definiu uma metodologia dividida em duas etapas: a primeira foi feita por peritos, técnicos do laboratório, que realizaram uma avaliação heurística. A segunda foi realizada com voluntários em laboratório.  Os ensaios foram realizados pela equipe do Laboratório de Concepção e Análise de Artefatos Inteligentes (LaCA²I), do Departamento de Design da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

A avaliação heurística identificou características e problemas de usabilidade nas interfaces entre o usuário e o produto. Esta etapa também subsidiou a elaboração dos roteiros para condução dos ensaios com os voluntários.

A análise de consumo foi feita por meio de simulações de uso com 14 usuários do sexo masculino e feminino, entre 18 e 38 anos. Cada um pôde pegar e manusear todos os tipos de embalagens e responder sobre sua familiaridade com as marcas analisadas.

Resumo dos resultados:

Avaliação feita pelos peritos:

Foram considerados os seguintes aspectos: análise das informações, a disposição destas na embalagem e a linguagem utilizada; se a embalagem permite que o usuário não precise se lembrar de informações na hora do manuseio, reconhecendo as instruções para seu uso; se as informações seguem coerência e padrões; e se previne ocorrência de erros.

As embalagens foram pontuadas da seguinte forma: 1 – Péssimo; 2- Ruim; 3- Regular; 4- Bom e 5- Excelente. Os resultados 4 e 5 foram considerados satisfatórios para a análise.

Os resultados mostram que apenas uma embalagem de barra de cereal (Quaker), duas de enlatados (Whiskas e Gomes da Costa) e duas de sacos plásticos (Plus Vita e Piraquê) tiveram desempenho considerado satisfatório, com notas 4 ou 5.

Os principais problemas identificados nas embalagens consideradas não satisfatórias foram:

Barras de cereal: cores com contrastes que dificultam a leitura (São Braz e Nutry), letras pequenas demais (São Braz, Nutry e Nestlé), uso de idioma estrangeiro antes do português (Nature Valley e Ritter), identidade visual que confundiam o consumidor (Ritter e a de Trio) e impressão dos textos em sentidos opostos, quebrando o fluxo da informação (Hershey’s).

Avaliação de cada marca: Hershey’s (2), Nature Valley (3), Nestlé (3), Nutry (2), Quaker (4), Ritter (2), São Braz (1) e Trio (3).

Enlatados: o tamanho dos caracteres e a dificuldade de se perceber o que o produto oferece (Beira-Mar e Swift), baixa atratividade da lata e disposição de informações em local de difícil acesso (88) e a afirmação de que a embalagem possui instruções sobre sua abertura na parte superior da lata, sem ter (Bonfiam).
Avaliação de cada marca: 88 (3), Beira-Mar (3), Bonfiam (1), Gomes da Costa (4), Swift (3) e Whiskas (5).

Embalagens de plástico: algumas tinham textos considerados pequenos e de difícil leitura por conta da transparência ou do brilho da embalagem (Adria, Qualitá e Wickbold) e a logomarca considerada exagerada, aparecendo repetidamente (Seven Boys).

Avaliação de cada marca: Adria (3), Piraquê (4), Plus Vita(4), Qualitá (2), Seven Boys (2) e Wickbold (2).

 Análises realizadas com os voluntários:

Foram avaliados11 aspectos ligados à usabilidade. São eles:

  1. a) Intuitividade: se a forma de utilizar e abrir as embalagens estão claras e se essas ações podem ser feitas sem consultar as instruções, mas, caso haja necessidade, elas devem ser localizadas facilmente.
  2. b) Simplificação: se o usuário sentiu-se confiante ao usar o produto, levou pouco tempo para identificar a abertura e o uso.
  3. c) Visibilidade: aspectos gráficos da embalagem, no que tange a formas, cores, fontes e diagramação, bem como se a embalagem é inclusiva para deficientes visuais.
  4. d) Mapeamento: se usuário segue diretamente a proposta da embalagem e se houve dificuldades na leiturabilidade.
    e) Feedback: se a embalagem deixa claro que está sendo aberta de forma tátil, visual e sonora.
    f) Tolerância a erros: se a embalagem pode ser restaurada caso rompida ou aberta acidentalmente, se informa sobre algum modo de como evitar estes erros e se é possível fechá-la, caso seu conteúdo não seja completamente consumido.
  5. g) Interação mediada: se ele apela constantemente para seus modelos mentais, se precisa estudar a embalagem antes de manuseá-la e se as informações nela contidas são claras ou se ela ensina como abrir de forma intuitiva.
  6. h) Inteligibilidade: se os textos e ícones das embalagens são legíveis e precisos.
  7. i) Frustração, Dissonância e Satisfação: medir o quanto os usuários se sentiram confortáveis ao tentar usá-las, se essa experiência lhes foi agradável, o quanto tiveram de dificuldades para manuseá-las, o quanto se queixaram ou desistiram e o quanto as embalagens estão dentro da realidade do usuário.
  8. j) Segurança: observar os aspectos físicos da embalagem (peso, dimensões, material, textura e acabamento), identificar as falhas do produto que podem comprometer seu manuseio e estudar graficamente a embalagem, com observações voltadas para o armazenamento, validade do produto e os riscos de manuseio da embalagem.
  9. l) Satisfação e Experiência de Uso: se a experiência pós-uso foi satisfatória e se gerou algum tipo de memória positiva no usuário que o incitasse a querer usar o produto novamente.

Para cada tema, foram consideradas satisfatórias aquelas embalagens que tiveram no mínimo 50% dos usuários concordando ou concordando fortemente, no caso de afirmativas com viés positivo. Já nas afirmativas com viés negativo, foram consideradas satisfatórias as embalagens que tiveram no mínimo 50% dos usuários discordando ou discordando fortemente.

Quadro geral de resultados:

Os gráficos abaixo apresentam a média dos resultados dos onze critérios da análise de consumo, por fornecedor.

grafico1

grafico2

grafico3

 

O resultado da análise demonstra a necessidade das empresas implementarem melhorias nas embalagens do ponto de vista de sua usabilidade, principalmente em relação a quatro aspectos: inclusão social – tornando a embalagem acessível para deficientes, em particular aqueles visuais -; a conservação dos alimentos; o risco de uso; e a disposição de informações relevantes ao consumidor.

Os riscos percebidos pelos usuários durante a análise das embalagens de enlatados ratificam os relatos constantes do banco de dados do Sistema Inmetro de Monitoramento de Acidentes de Consumo. Assim, o Inmetro irá estudar a possibilidade de criar critérios mínimos de segurança que contribuam para mitigá-los.

Adicionalmente, o Instituto irá propor à Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) melhoria das embalagens por meio da adoção de requisitos que promovam a acessibilidade das embalagens e melhorias na usabilidade, incluindo os itens que se destacaram na análise.

Informação ao Consumidor:

Como ouvimos pouco falar em usabilidade, muitas vezes não relacionamos alguns incidentes e/ou acidentes que acontecem com os problemas de usabilidade da embalagem. Por exemplo: “Ao abrir o pacote de biscoito mais da metade do conteúdo foi parar no chão” ou “Ao abrir uma lata de tomate pelado (daquelas que vem com um anel superior para puxar – facilitador de abertura) a tampa da lata cortou a parte interna de um dos meus dedos”. Em eventos desse tipo é comum a pessoa atribuir o resultado a sua atitude, ou seja, entender que foi a responsável pelo resultado, sem pensar na possibilidade de ter sido a falha da embalagem que gerou o efeito diferente do esperado.

Baseados em relatos registrados no Sistema Inmetro de Monitoramento de Acidentes de Consumo, listamos abaixo algumas dicas para que, em caso de falhas da embalagem, você possa preservar sua saúde e segurança e contribuir para melhoria do produto.

– Se tiver dificuldade na hora de abrir latas, mesmo as que possuem anel, não force a abertura. O mais indicado é ler a instrução de uso e, se a dificuldade para abrir persistir, use o abridor de latas. Jamais utilize faca ou outros objetos pontiagudos para ajudar na abertura.

– Se ao abrir a embalagem conforme a instrução de uso você se machucar, entre em contato com a empresa para registrar seu acidente e registre seu relato no Sistema Inmetro de Monitoramento de Acidentes de Consumo.

Um acidente de consumo é configurado quando se constata um defeito no produto ou serviço que além de torná-lo inadequado para seu uso, também causa dano ao consumidor ou representa riscos à sua saúde ou segurança. Assim, todos os danos materiais e morais causados ao consumidor devem ser ressarcidos pelo fornecedor dos serviços. Caso isso aconteça, você pode procurar o Procon mais próximo de sua residência para fazer valer seu direito.

– Se tiver dificuldade em identificar qualquer informação na embalagem do produto (letra pequena, contraste ruim nas cores da embalagem ou qualquer outro problema do gênero), entre em contato com o Serviço de Atendimento ao Consumidor da empresa para registrar sua percepção. A opinião dos consumidores é um importante fomento para as empresas melhorarem seu desempenho.

– Sempre ouvimos dizer que não devemos comprar enlatados se a lata estiver amassada. Entretanto, Associação Brasileira de Embalagem de Aço – Abeaço[1]garante que essa afirmação é mito. “Essa regra não funciona há mais de 40 anos. Desde 1970 as latas de aço têm uma proteção interna maleável, que impede que, quando elas forem amassadas, o alimento entre em contato direto com o metal.”

– Por outro lado, a Abeaço alerta que não devemos comprar enlatados se a lata estiver estufada, pois, nesse caso, provavelmente aconteceu uma falha no processamento do alimento e ele pode estar contaminado. A regra vale não só para latas, mas para qualquer tipo de embalagem que esteja estufada.

– Após a abertura do produto, siga as instruções descritas na embalagem e atente-se para a forma de armazenamento e prazo para o consumo do alimento após aberto.

– A manipulação correta das embalagens garante sua integridade minimizando riscos de perda do produto. Evite colocar excesso de peso sobre as embalagens mais sensíveis, na hora da compra e de armazenamento em casa. Evite produtos com data de validade vencida, embalagens estufadas, tampas abertas ou violadas e produtos com vazamento[2].

– Todas as embalagens analisadas são recicláveis. Cabe destacar que a embalagem unitária da barrinha de cereal, a que é metalizada, deve ser descartada no coletor para embalagens plásticas.

– As embalagens descartáveis de alumínio usadas para armazenar, congelar, descongelar, aquecer e servir alimentos podem ser utilizadas no micro-ondas sem  oferecer riscos para sua saúde e segurança. Confira aqui o passo a passo.

 

[1] Disponível em:< http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2012/09/voce_ag/vida/1357984-fique-longe-das-embalagens-de-enlatados-estufadas.html&gt;

[2] Disponível em <http://www.tetrapak.com/br/embalagens/dicas-para-consumo&gt;

 

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