Inmetro analisa concentração de chumbo em tintas imobiliárias


Das 17 marcas avaliadas, duas tiveram resultado insatisfatório,
uma delas por apresentar teor 200 vezes acima do permitido

tintas2015O Programa de Análise de Produtos do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), em parceria com o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), avaliou 17 marcas de tintas imobiliárias, sendo 12 do tipo esmalte sintético e cinco do tipo verniz, visando avaliar a concentração de chumbo nos produtos, pelo perigo que a substância em níveis acima do permitido representa à saúde humana e ao meio ambiente.

As marcas de esmalte sintético analisadas foram: Alessi, Coral Coralit, Dacar, Eucatex, Killing Bella Casa, Luztol, Renner, Resicolor, Sherwin Williams Nova Cor, Suvinil, Unilar e Universo.

E as marcas de verniz analisadas foram: Luztol Restaurex, Montana Osmocolor, Sayerlack, Sparlack, Suvinil.

Todas as marcas de verniz estavam conformes e duas de esmalte sintético foram consideradas não conformes. São elas: a Luztol e a Unilar, que apresentou concentração de chumbo 200 vezes maior que o limite estabelecido pela Lei Federal 11.762, de 1º de agosto de 2008.

O ensaio de concentração de chumbo em esmalte sintético e verniz foi conduzido pelo Laboratório de Análises Químicas do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), acreditado pelo Inmetro.

“Embora haja tendência de conformidade dos produtos, chama atenção os valores encontrados em uma marca. A exposição ao chumbo pode causar uma série de doenças, principalmente para crianças pequenas. Como a tinta com chumbo se deteriora ao longo do tempo, as pessoas podem inalar ou ingerir por meio da poeira doméstica, lascas de tinta ou solo contaminado”, destacou Diretor Substituto da Diretoria de Avaliação da Conformidade, Paulo Coscarelli.

A Aliança Global para a Eliminação da Tinta com Chumbo (GAELP), da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), já desenvolve campanhas em diversos países, com o objetivo de conscientizar sobre os riscos de exposição de crianças a tintas contendo chumbo e minimizar a exposição de pintores e usuários a este produto.

Diante dos resultados, o Inmetro encaminhará o relatório desta análise ao Ministério do Meio Ambiente e Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior – MDIC para apreciação.

Visando esclarecer quais os possíveis riscos à saúde e à segurança do cidadão exposto às tintas com alto teor de chumbo, entrevistamos a especialista Rúbia Kuno, Gerente da Divisão de Toxicologia Humana e Saúde Ambiental, da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo – CETESB.

1) O que pode acontecer, em longo prazo e curto prazo, com a pessoa que fica exposta a uma parede pintada com uma tinta que tenha alto teor de chumbo?

Se a parede permanecer intacta, não haverá risco para as pessoas que estão em ambiente com parede pintada com tinta que contém chumbo. O grande problema é quando essa parede vai sofrer alguma manutenção, pois ao lixar a parede, o chumbo poderá ser liberado nos particulados (pó) e poderá ser inalado. Outro problema que preocupa as autoridades de saúde,  é quando a parede começa a liberar lascas da camada de tinta, oferecendo riscos em especial às crianças que podem levar esse material à boca. O ato de ingerir esse material é chamado de “pica” e é geralmente praticado por crianças, Expondo-as ao chumbo por ingestão

2) No caso da tinta não conforme, que tinha duzentas vezes mais chumbo que o permitido, qual o raio de alcance em relação à contaminação. Por exemplo: pintei uma parede da sala, a pessoa que trabalha só na cozinha pode ser afetada? O vizinho de porta pode ser afetado?

A resposta é a mesma da questão anterior. Para que o chumbo cause algum problema de saúde tem que haver rota de exposição, ou seja, o contaminante tem que atingir o ser humano e ser absorvido, quer seja por inalação ou ingestão, principalmente, pois neste caso a absorção pela pele é insignificante. Em condições normais no ambiente, isto é, pintura intacta, o chumbo não é volátil, então se o material não for aquecido e não sofrer as alterações citadas na resposta da questão anterior, não haverá rota de exposição. Então, as pessoas que estão no ambiente não sofrerão os efeitos do chumbo, muito menos as que estão em outros ambientes.

3) O percentual de chumbo em tinta imobiliária permitido por lei é de até 0,06% (seis centésimo por cento), quanto a mais que isso já pode ser preocupante para saúde das pessoas?

Há um consenso que esse valor protege as crianças dos efeitos do chumbo decorrentes da ingestão de lascas de tintas. Os efeitos do chumbo são mais preocupantes para crianças, pois o seu organismo absorve mais chumbo do que o de adultos e o sistema nervoso em desenvolvimento é mais sensível aos efeitos danosos do metal. Considera-se que níveis superiores a 0,06% podem causar efeitos à saúde das crianças que praticam “pica”.

4) Que tipo de impacto para o meio ambiente uma tinta não conforme pode causar?

Todas as fontes potenciais de chumbo no ambiente devem ser controladas, e devido à alta toxicidade do chumbo, o seu uso tem sido minimizado ou em alguns casos banido (por exemplo, a adição de chumbo tetraetila na gasolina). Diante de outras possíveis fontes de chumbo, como indústrias reprocessadoras de chumbo, áreas contaminadas, entre outras, a tinta não é a que causa maior impacto ambiental. Mas, sem dúvida, é uma fonte muito importante de exposição do grupo mais sensível da população aos efeitos deletérios do chumbo que são as crianças, principalmente entre 0 e 3 anos.

5) No passado recente, muitas tintas tinham teor de chumbo acima do que é permitido hoje por lei. Por outro lado, muitos trabalhadores lidam nos dias atuais com material de demolição oriundo ainda dessa época, até que ponto esse contato pode afetar a saúde desses trabalhadores? Que dicas de proteção você indicaria para essas pessoas?

De fato, a grande preocupação é no momento da demolição ou reformas como já citei anteriormente. No entanto, nas exposições ocupacionais a legislação brasileira estabelece limites de exposição do trabalhador. Mas sabemos que o trabalhador não convencional ou aquele sem contrato de trabalho pode estar exercendo as atividades em ambiente sem controle. Nesses casos, é recomendado o uso de EPI (Equipamento de Proteção Individual) como respiradores (máscaras) semifaciais contra pós e poeiras e chumbo, além de luvas, que devem ser descartadas após o uso. As especificações dos EPIs e o controle ambiental ocupacional são regulamentados pelo Ministério do Trabalho e Emprego e Fundacentro. Alguns cuidados podem ser tomados quando é necessário remover tintas com alto teor de chumbo, por exemplo, tomar cuidado para não produzir muito pó, remover os móveis do local e não se alimentar e fumar nesses locais.

Acesse aqui o Relatório de Chumbo em Tintas na íntegra

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